domingo, dezembro 15, 2019
Dicas

Minha Sombra, Sua Sombra, Nossa ESCURIDÃO – 98/365

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Jung dizia que cada um de nós projeta uma sombra mais escura e compacta quando menos encarnada se faz em nossa vida consciente. Essa sombra constitui, em todos os efeitos, um impedimento inconsciente que inibe as nossas melhores intenções.

Eu gosto muito, muito de falar de sombras de percebê-las e ajudar meus clientes a olharem com carinho para elas, já que a maioria nem sabe o que é uma sombra do ponto de vista terapêutico e alguns que possuem uma ideia, preferem ignorar, não aceitar ou simplesmente deixá-las guardadinhas de lado para um dia olhar para elas.

A primeira vez que ouvi o termo fiquei pensativo e tal como tudo o que me desperta curiosidade, mergulhei no assunto e percebi que já falava disso há muitos tempo, mas tratava como demónios! Dizia que existia uma parte minha que não era boa e precisa lidar com os meus demónios.

Sombras, demónios, lado menos bom, lado escuro, seja lá o nome que damos, todos nos temos um lado assim! Um lado sombra que, às vezes não percebemos, mas alimentamos este monstrinho que aos poucos vai crescendo e às vezes toma conta de tudo, acabando por fazer um estrago emocional que pode levar anos para ser reparado.

Sem querer entrar em termos religiosos, uma vez ouvi uma frase MESMO curiosa e peço que preste atenção na frase e na minha interpretação por favor! A frase foi: Sabe qual foi o maior golpe que Lúcifer deu? Convencer todos de que ele não existe! Quando ouvi esta frase, claro que ela estava dentro de um contexto maior e a pessoa dizia que já que não acreditamos no “mal” fica mais fácil ele entrar, atuar e fazer uma grande festa em nossa vida e nem nos damos conta da sua atuação.

Anos depois lembrei desta frase no mesmo instante que compreendi o conceito de nossas sombras. Quando a ignoramos, não percebemos, não entendemos, com absoluta certeza ela ganha força, pois se não olhamos pra ela ou a tratamos com carinho, estamos a alimentá-las sem saber que o estamos a fazer.

As nossas sombras vão sendo desenvolvidas desde a infância, como o nosso Ego e alguns defendem que ambos partem da mesma experiência vital. Claro que a construção e alimentação das nossas sombras depende de uma série de fatores, entre eles como o sistema familiar é construído.

Existem lares onde é comum a raiva, o ódio, a agressividade, a sexualidade e todo o sistema familiar vai sendo alimentado desta forma. Há famílias que brigam por tudo e já tive a oportunidade de atender clientes que cresceram (por exemplo) entre ambientes de brigas gigantes sobre partilhas de bens, em que os pais alimentavam o ódio e anos depois estes filhos já grandes continuavam a odiar, alguns a ensinar os seus filhos a alimentarem o ódio!

Tudo bem que a direção era outra, mas a base continuava a ser o ódio. Desta vez pelos políticos, pelo governo, pelo país, mas um ódio que muitas vezes escapava para dentro de casa e dele nascia uma violência doméstica ou algo pior.

Algumas vezes uma pessoa alimentou sua sombra por anos e depois percebeu que tinha algo conflituoso ali dentro. Quando começamos a trabalhar mais fundo para compreender as dores emocionais daquele indivíduo, percebemos que existe uma forte resistência de compreender, de se abrir.

Muitas vezes aqui falei sobre o Génio que habita no inconsciente e como o programamos desde pequeno com a ajuda dos nossos pais e educadores. É como se neste mesmo azul escuro também tivesse espaço para estes pequenos “monstrinhos” construírem a sua escuridão e quando vamos mais fundo nos deparamos (não) com um monstrinho, mas como uma série deles unidos, firmes e fortes trabalhando para impedirem que a compreensão e a sabedoria entrem ali.

Mais uma vez sem nenhuma ideia religiosa é como se estes “monstrinhos” se organizassem para que ali a luz da consciência não pudesse entrar, pois se iluminarmos uma sombra o que acontece com ela? Ela diminui, ela perde a força, ela pode enfraquecer.

Não acredito que a reconciliação ou fazer as pazes com os nossos demónios, com as nossas sombras, faz com que elas desapareçam… Não…. Porém muda completamente a relação que temos com ela e isso pode fazer a grande diferença. Conviver com elas, olhar de maneira mais carinhosa, dar a atenção que elas merecem, nos coloca numa posição privilegiada, pois não vamos alimentá-las para fortalecê-las, mas vamos alimentá-las com luz consciente para irmos aos poucos transformando-as.

Citando mais uma vez Carl Gustav Jung “a sombra só é perigosa quando não lhe damos a devida atenção”, agora quando olhamos para elas, quando tomamos consciência do que temos (dentro), começamos a perceber o nosso comportamento e permanecemos dentro dele apenas se desejarmos! Sinceramente, apenas se desejarmos.

Eu hoje olho para as minhas sombras com muito carinho e não gosto das sombras que vejo, mas a questão aqui não é gostar, no meu caso tenho nos últimos anos abraçados cada uma das minhas sombras e conversado com elas, alimentado com luz consciente cada uma delas e MESMO quando uma escapa e (tenta) tomar conta de tudo, respiro fundo, compreendo a sua ansiedade, mas já percebo que elas não conseguem ficar mais do que minutos “no poder” e sabe porquê? Porque elas não possuem a força que possuíam há anos atrás.

Para começar elas tinham mais poder porque eu nem sabia que elas existiam! Ou não desta força, com esta importância. Depois parei de ignorá-las e comecei a olhar pra elas com a mesma atenção que olhava para as minhas qualidades. Me esforcei para compreender porque algumas eram tão grandes e porque outras gritavam com a minha alma com tanta raiva. Aos poucos fui doutrinando, cuidando, iluminando e aos poucos vou aprendendo a viver com elas e elas comigo.

Minha Sombra, Sua Sombra, Nossa ESCURIDÃO me soa como a festa da ignorância, o encontro do caos, o concurso para disputarmos o poder invisível do nada, compreende? Agora se começarmos a olhar com carinho para estas sombras, quem sabe deixa de ser a nossa ESCURIDÃO para ser o nosso cantinho da aprendizagem, o ponto de luz ou até minha sombra, minha compreensão, minha ILUMINAÇÃO.

O facto é que gosto de acreditar que somos sempre os responsáveis pela nossa própria salvação!

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